quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

HABIB - UM HISTÓRIA

Habib – uma história a partir da história 
 
Quem acompanha o noticiário da imprensa, sabe muito bem que o Oriente Médio é uma das regiões mais conturbadas e violentas do mundo. As causas são muitas para que ali, exatamente naquela região do mapa, os confrontos de interesses econômicos e de fé religiosa encontrem o seu ponto de ebulição há tanto tempo. 
As grandes potências mundiais nos últimos dois mil anos foram sistematicamente movidas por razões econômicas, principalmente, mas também religiosas a se envolverem em guerras de conquista naquela região com a finalidade de exercer o domínio sobre toda ou parte dela. Por outro lado, internamente sempre houve motivos para que os povos cuja origem está ancorada lá mesmo alimentassem animosidades históricas. Assírios, fenícios, caldeus, curdos, egípcios, judeus, persas, palestinos, turcos e tantos outros praticaram ao longo de milênios um convívio que em nenhuma hipótese pode ser considerado harmonioso e pacífico. 
Nos dias atuais, como todos sabem, a intervenção americana no Iraque e o milenar conflito árabe-israelense são dois exemplos consistentes do que foi mencionado anteriormente, capazes de atrair diariamente o noticiário internacional dos meios de comunicação. 
É preciso, porém, voltar na história no mínimo 11.000 anos e peço licença ao leitor para um breve regresso nela, com a finalidade de compreender melhor as razões que tornaram o Oriente Médio o barril de pólvora que hoje é.  
A história é fascinante, por isso acredito que valha a pena discorrer um pouco sobre ela para chegar à pessoa simples e quase anônima de um palestino carinhosamente por nós, brasileiros, chamado de Habib que é a personagem central deste texto, cuja trajetória de vida pretendo contar mais adiante.
Na verdade, foi no Oriente Médio, no chamado crescente fértil que toda história da civilização ocidental teve origem. O crescente fértil é assim chamado por ter a forma imaginária de uma meia lua que tem uma ponta assentada na região do Rio Nilo, no Egito, sua borda superior margeia a costa do Mediterrâneo, passa pelo sul da Turquia, pelo Irã e acaba no atual Kuwait. Já o seu limite sul passa pelo Iraque, Jordânia, Israel e termina no mesmo Egito. Nesta pequena área geográfica, favorecida pelo clima, pelo solo e fauna, há mais de 11.000 teve começo uma onda desenvolvimentista extraordinária, onde a espécie humana deu o chamado salto para adiante provocando o surgimento de diversos povos que rapidamente progrediram em muitas áreas, criando as bases para a atual civilização do mundo ocidental. 
Foi nesta região que o ser humano encontrou as condições favoráveis para alcançar um progresso nunca antes experimentado, deixando a condição de simples caçadores-coletores para evoluir para a agricultura, pecuária, domesticação de animais, metalurgia, além de inaugurar as primeiras sociedades politicamente organizadas. Os primeiros impérios, a escrita, as artes nas suas mais diversas manifestações desenvolveram-se no crescente fértil como nunca havia acontecido em nenhum outro local no planeta, gerando ao longo dos séculos um efeito expansionista e multiplicador em todas as direções, principalmente Europa e Ásia, onde ocasionou o surgimento de novos centros de poder de abrangência globalizada. 
Já em tempos mais recentes, o Oriente Médio tornou-se a encruzilhada do mundo por ser passagem obrigatória das grandes rotas comerciais e terem aí surgido as três únicas religiões monoteístas do mundo. As cruzadas foram os primeiros conflitos bélicos de grandes proporções alimentados por antagonismos que colocaram frente a frente mais de um milhão de pessoas em 300 anos de batalhas sangrentas, cuja causa determinante foi a fé religiosa. Centenas de milhares morreram por ela.
Nos dias atuais, a busca do petróleo e o domínio das regiões produtoras continuaram sendo a causa de sucessivas guerras que têm o crescente fértil como palco. 
Por outro lado, a fé religiosa e a disputa do território da antiga Palestina colocam novamente frente a frente judeus e árabes num conflito que todos sabem onde começou, mas ninguém pode garantir quando e se um dia terminará.  
Razões econômicas e religiosas são, portanto, os grande ingredientes para deixar no ar e na terra de todo o Oriente Médio um constante clima de conflito que já ceifou a vida de milhões de seres humanos. Paradoxalmente no mesmo lugar onde este mesmo ser humano há milhares de anos atrás iniciou uma trajetória vitoriosa para alcançar a sua autonomia como animal diferenciado dos demais.
Entre as muitas guerras em que judeus e árabes se envolveram, quero destacar a de 1957, na qual os israelenses não só consolidaram definitivamente a posse da antiga Palestina, como também conquistaram amplos territórios do Egito, Jordânia, Síria e Líbano, seus vizinhos mais próximos. 
As Nações Unidas, organização criada após a 2ª GM com o intuito de manter uma paz estável no mundo, interveio naquele conflito, restabelecendo em parte as antigas fronteiras entre os países vizinhos envolvidos. Estabeleceu também que, na medida em que Israel abdicasse dos territórios conquistados, abrir-se-iam espaços na Faixa de Gaza e na Cisjordânia para abrigar, na condição de refugiados, o povo palestino expulso de seu antigo território, agora ocupado pelo Estado de Israel.
Mais ainda. Foi criada uma força internacional de paz, sob os auspícios da ONU que deveria zelar pelo “status quo” acordado diplomaticamente e aceito pelas partes. 
O Brasil foi um dos integrantes dessa tropa com um contingente de um Batalhão de Infantaria, inaugurando uma longa tradição do nosso país de participar, desde aquela data, de muitas outras forças de paz da ONU nos mais diferentes locais do planeta e que dura até hoje. 
Durante dez anos a Força de Emergência das Nações Unidas zelou pela paz na região, cumprindo integralmente a sua missão. Talvez tenha sido o período mais longo desde a criação do Estado de Israel em que não houve confrontos bélicos entre judeus e árabes. Também, durante dez anos o Exército Brasileiro esteve presente nesta gloriosa missão com 20 contingentes, batalhões de infantaria, cujos integrantes, cerca de oito mil, não só conheceram as características de outros povos do mundo como também mostraram a eles o profissionalismo, a determinação e o espírito humanístico do soldado brasileiro. 
A sede do Batalhão Brasileiro, chamado Batalhão Suez, ficava junto a cidade de Rafah, bem ao sul da Faixa de Gaza, assim que da cerca dos fundos do quartel, podia-se observar toda a cidade. Muitos de seus habitantes, todos refugiados da antiga Palestina, freqüentavam as instalações do Batalhão quer como proprietários de pequenos comércios existentes no seu interior, quer como prestadores dos mais diferentes tipos de serviço. 
Dentre estes, destaco a figura de Youssif  Awmi el-Shawwa, um garoto que, em 1965-66, tinha cerca de 17 anos, época em que lá estava o 18 Contingente Brasileiro. Youssif era conhecido como Habib, apelido colocado pelos brasileiros que em árabe significa amigo. Ele prestava pequenos serviços para os integrantes dos contingentes brasileiros que por lá passaram desde quando tinha 10 anos de idade, tendo neste período praticamente aprendido a falar português. 
Habib era um garoto afável, educado e muito prestativo de quem todos gostavam. Curioso, conversava muito com os brasileiros sobre a nossa terra, o que fez alimentar nele o sonho de um dia vir para o Brasil e aqui construir o seu futuro. No ano de 1966, Habib conheceu o então Major Aroldo José Machado da Veiga que era o S4 e fiscal administrativo do 18 Contingente, com quem teve contatos bastante freqüentes pelos serviços que o oficial brasileiro o incumbia de realizar. Acabaram tornando-se amigos. Habib um dia contou a Veiga o seu sonho. Ora, Veiga tinha servido por muito tempo em São Paulo, onde tivera a oportunidade de conhecer e estabelecer boas relações com a colônia árabe da cidade, fazendo bons amigos entre eles. 
Conhecedor do sonho de Habib, Veiga se engajou nele e começou a montar um plano ousado e perigoso, porém possível. O objetivo do plano era trazer Habib para o Brasil. A única chance era ele vir como clandestino, já que aos refugiados palestinos somente eram concedidos passaportes e permissão para sair da área em condições excepcionais. A um menor de idade, desacompanhado, então, isto só seria possível através de uma operação muito bem concatenada. 
Pois bem, Veiga planejou tudo e executou seu plano melhor ainda. Primeiro escreveu para alguns de seus amigos da colônia árabe de São Paulo que imediatamente se prontificaram a receber Habib, assim que ele chegasse ao Brasil. No contingente sueco tinha também amigos que logo se mostraram dispostos a participar da aventura, encarregando-se das providências logísticas para transportar o garoto clandestino para nosso país. Com a família de Habib, Veiga estabeleceu contato e obteve dela plena permissão para que o filho viesse para o Brasil nas condições que ele expôs a ela.
Assim tudo aconteceu. Um belo dia, o garoto Habib embarcou clandestinamente num avião militar sueco em El Arish, viajou para Stokolmo e lá, com arranjos previamente realizados, ele foi colocado num vôo da SAS para São Paulo. 
A partir daí ninguém mais soube dos passos de Habib. Em 1967, a Força de Paz da ONU foi extinta, após a eclosão da Guerra dos Seis Dias e nenhum brasileiro mais teve contato com a família de Habib. Tampouco o Maj Veiga que acabou não sabendo quem acolheu Habib quando ele chegou a São Paulo, muito menos qual o seu destino no Brasil. 
Passaram-se quase 40 anos sem que ninguém dos que sabiam da história de Habib tivessem conhecimento de seu paradeiro, apesar dos esforços de alguns deles, principalmente Veiga. Veiga, até passar para a reserva como coronel, tentou de todas as maneiras saber onde andava aquele garoto esperto que ele num momento de coragem e ousadia, contrariando leis e regulamentos, mas num profundo gesto humanitário, ajudara a sair da Faixa de Gaza. 
No ano de 2004, um integrante do 20, último contingente brasileiro em Suez, profundamente marcado para o resto da vida pelos momentos angustiantes por que passou na Faixa de Gaza durante a Guerra dos Seis Dias em 1967, resolveu dedicar suas horas vagas para desvendar este intrincado mistério. Fernando Vargas, este o nome dele, bem sucedido na vida e já quase aposentado no seu trabalho na área do turismo no Rio de Janeiro, virou mundos e fundos e, com o auxílio da internet, esta magnífica ferramenta da modernidade, finalmente descobriu o paradeiro de Habib no Brasil.
Vargas encontrou Habib em Rio Branco, capital do Acre. 
Mas Habib não era mais aquele Habib frágil, pobre e, na sua condição de refugiado, destituído de cidadania dos tempos de Rafah. Habib era agora o Sr Yussif, figura importante da sociedade de Rio Branco, respeitado e reconhecido como um dos maiores empresários do estado. As mais importantes obras do Acre, prédios, pontes, estradas, tinham sido erguidas pela maior construtora do estado, cujo proprietário era nada mais nada menos que Yussif 
Além disso, Yussif, ou Habib como nós integrantes do Batalhão Suez continuaremos a chamá-lo carinhosamente para sempre, tem interesses em muitas outras áreas no Acre como a pecuária, proprietário que é de grandes fazendas, além do comércio propriamente dito do qual nenhum árabe que se preze pode ficar afastado. 
Casado, a esposa de Habib é, também, figura importante na política do estado, já tendo sido secretária da educação de Rio Branco e do Acre. Suas três filhas, todas com curso superior, ajudam-no a administrar os negócios da família, além de serem bem sucedidas em suas próprias carreiras. 
No ano de 2004, em outubro, Habib foi convidado por Fernando Vargas a participar das comemorações do Dia das Nações Unidas que, no Rio Grande do Sul, anualmente tem lugar no Quartel do 18 BIMtz, hoje sediado em Sapucaia do Sul. O 18 têm vínculos históricos com o Batalhão Suez porque foi a unidade onde foram preparados os três contingentes gaúchos daquela força de paz.
Habib aceitou o convite e veio ao Rio Grande do Sul, comparecendo à solenidade. Fez a longa viagem para encontrar velhos conhecidos a quem em outras épocas na distante Rafah prestara serviços mas cujas imagens sempre guardara na memória como amigos. Veio também e, principalmente por isso, para rever o Cel Veiga, seu grande benfeitor. Mas não veio só. Trouxe a esposa, além de amigos do Acre, todos figuras importantes da sociedade local – um ex-senador da república, deputados estaduais, personalidades do poder judiciário – mostrando assim o reconhecimento que o povo daquele estado tem por um imigrante que um dia lá chegou pobre e desprotegido mas que com disposição, inteligência e muito trabalho alcançou a posição que hoje ocupa. 
O quartel do 18 BIMtz viveu naquele dia momentos de grande emoção. Passados 40 anos, ninguém reconheceu Habib, nem Habib reconheceu nenhum dos ex-integrantes do Batalhão Suez que lá estavam, com os quais fizera amizade na distante Rafah há tanto tempo atrás. 
Tive o prazer de apresentar Habib e contar sua história para aqueles senhores já encanecidos pelo tempo, presentes à comemoração que olhavam perplexos para o cidadão elegantemente trajado que estava postado ao meu lado. Custaram a acreditar na minha história, mas a memória deles foi se avivando e de vagar foram se chegando dominados pela emoção que sequer deixou alguns deles falar, inclusive Habib. Houve abraços, lágrimas copiosas e muita felicidade naquele encontro histórico. Acredito que jamais haverá outro igual. 
Muitas histórias aconteceram durante os 10 anos em que o Exército Brasileiro se fez presente no Oriente Médio. O contato com a população palestina, o deserto, o patrulhamento dia e noite da fronteira, o convívio com outros exércitos do mundo, a Guerra do Seis Dias foram todas experiências inesquecíveis que todos os brasileiros que pertenceram ao Batalhão Suez viveram, cada um ao seu modo. Muito pouco disso foi documentado, ficando apenas como história oral que pais e avós contam para filhos e netos e amigos contam para amigos. 
Mas a história de Habib é única, por isso resolvi escrevê-la.  
Ela contém, além de tudo que relatei anteriormente, um componente extraordinário que não pode ficar no esquecimento de todos nós. Habib é fruto de um caldo de cultura milenar, nele estão sintetizados os primeiros passos do ser humano como membro de uma sociedade que saiu das cavernas e conquistou o mundo. Mas Habib também sintetiza, por outro lado, as oportunidades que um novo mundo, o Brasil, lhe proporcionou, não lhe perguntando de onde veio, de quem descende, que língua fala, só querendo saber se estava disposto a trabalhar honestamente e lutar pelo crescimento deste país. Em troca, lhe deu tudo o que ele tem hoje.  
Esta é a história de Habib.


Flávio Oscar Maurer

maurer1940@gmail.com

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